sábado, 3 de abril de 2010


Faz um pouco mais de um ano que se tem uma frase que me perturba e causa delírios em minha mente, a frase é esta: “É a vida!”. Um verbo, um artigo, um substantivo, uma exclamação, que somados resultam em um empencílio. Ouço essa frase como resposta em diversas oportunidades, tanto em bons, quanto em relativos maus momentos. E acho que gostaria mais que agulhas e pregos fossem introduzidos entre minhas unhas e minha carne, que ouvir os sons dessas frases penetrando meus ouvidos novamente. O gozado é que eu mesmo, por incontáveis vezes, já recitei esta resposta. Felizes aqueles que entederam a resposta que dei, e diferente de mim, não massacram seus neurônios com angústia de não entender o “por que” desse tipo de resposta. Hoje me parece que pronunciar “É a vida!”, nada mais é, que abreviar uma discução que iria se estender por muito. Em suma, seria uma conclusão precipitada para um grande problema mal resolvido.

E isto pode ser o véu que encobre algo tão precioso, que jamais tentamos chegar até então, justamente por sucumbirmos na derradeira resposta. Sucumbimos por quê? Preguiça? Falta de interesse? Falta de paciência? Talvez! Mas o fato é que quando você se depara recebendo essa resposta, você não se conforma. No mínimo você fica sedento por uma resposta melhor formulada, eu diria até de melhor compreensão, pela busca da resolução de um enigma. Acredito que contestar a conjectura de Goldbach seria mais fácil. Seria mais fácil ganhar a medalha Fields que permitir-me ousar ouvir “É a vida!” pelo restante de minha vida. Ganhar o prêmio Nobel seria mais fácil ainda, Afinal, Barack Obama ganhou fazendo o contrário do que se deveria fazer para ganhar.

Recentemente, em um exemplo bem banal, acordei pela manhã e encontrei meus amigos, que por sinal, era os mentores na noite anterior da minha ressaca naquela manhã. Fiz um breve pouco produtivo comentário: ”- Maldita ressaca!”. E como eu queria que alguém recitasse os fonemas de algo do tipo: “-Por que tu não paras de beber?”, “-Bebeu demais ontem à noite!”, “Ninguém mandou beber!”. No entanto eu ouvi em alto e bom som: “É a vida!”. Aquilo ecoou de tal forma, que foi o que faltou para eu vomitar. Vários chás depois, lá estava eu, surpreendido por essas palavras já afetarem o meu organismo.

Deste momento em diante descobri que não poderia mais confrontar esta questão sozinho. Precisava por demais de ajuda e fui consultar uma psicóloga. Em meu primeiro encontro com a Dra. Biemel, ela me deixou claro os intuitos da psicoterapia e me encheu de esperanças de esperanças por aquilo que eu tanto ansiava naquele momento. Compreender a frase: ”É a vida!”, voltar a ter minhas noites bem dormidas e recuperar minha boa vontade por aquilo que faço. Mas a partir do momento que Dra. Biemel me propôs aceitar e conviver com a expressão “É a vida!”, tive um sutil descontrole. Primeiro destruí a cafeteira que ficava do seu lado, revirei poltronas e almofadas, e por fim queimei um retrato de Freud, que ficava guardado em um armário. Hoje penso que as coisas poderiam ter sido piores. Eu poderia ter posto o consultório inteiro em chamas.

Mas Dra. Biemel era um amor. Não satisfeita com a minha situação, indicou-me a Dra. Krawulski para algumas sessões de hipnoterapia. Dra. Biemel e Dra. Krawulski acreditavam que esse meu mal súbito tinha origem em algum passado meu mal contado. Com toda desconfiança que Dra. Biemel tinha por objetivo final me convencer a aceitar a frase pelo restante de minha simplória vida aqui na Terra, neguei-me enfaticamente. E me vi então, solitário em busca de algo nem sei se existe. Mas que creio com toda a minha fé.

Sim, tive que continuar a minha busca por algum tipo de compreensão solitariamente. Pois pelo contrário, Dra. Biemel e Dra. Krawulski, astutamente me encaminhariam ao manicômio mais próximo. Já podia até enxergá-las com uma camisa de força e baterias para me tratar com choques. Logo tive que me comportar como se a questão não existisse. Comecei a me sentir John Nash, pois estava ignorando algo que corroia a minha mente. E sabe o porquê disso?

Porque “é a vida”!

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaargh!!!

“I’m free. Free Falling!

Yeah, I’m free. Free Falling!”


Por Tiago Fontanella.