sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Eternamente acompanhado








Escrevo acompanhado e só ao mesmo tempo. Estranho ? Esse alguém que está ao meu lado e me faz companhia , também me proporciona solidão, além de outras coisas. Mas não é assim que começa a história.
Recentemente tive meu último encontro com a Felicidade. Ela surgiu de uma penumbra incrível, de onde eu já não enxergava mais nada. Veio até mim de tal forma que minha longa companhia desapareceu repentinamente. E eu fiquei radiante em um estado sublime. A Felicidade veio em minha direção guiada pela mão da mais Bela Mulher que já vi, e ouso dizer que não verei algo tão belo novamente, pois algo assim é único. A voluposa Felicidade me envolveu, me tomou pelos braços e me drogou. Nunca, jamais me senti assim. E vi a Felicidade nua, dotada de uma silueta inimaginável. Das outras vezes que eu a vi, Ela não estava assim, nenhum um sorriso amigável ela me oferecia antes. Mas mesmo assim eu ainda preferia a companhia Dela. Estava tudo maravilhoso, era divino!
Após três meses aconteceu o que já havia acontecido antes. Porém desta vez eu não esperava que fosse tão intenso. Ela partira! Flutuou e começou a sumir novamente, agora Ela desaparecia entra as nuvens no tardar da noite. E eu disse:
EU – Espere! Aonde você vai?
Ouvi apenas um silêncio e recebi um doce sorriso. E perguntei?
EU – Nós vamos nos ver de novo?
FELICIDADE – Talvez!
E assim entre as nuvens Ela se foi. Tudo bem não seria a primeira vez que Ela faz isso. Mas agora doeu. Eu estava entregue e nunca tinha sido tão verdadeiro com Ela. Desta vez foi diferente e nunca senti esse tipo de dor. Mas tudo bem, sou forte! Caminhei alguns metros e meus joelhos vieram ao chão. Prometi não chorar mais, mas não me contive. Entre lágrimas e soluços, eu vi o meu reflexo nas poças no chão. Me reergui e caminhei mais alguns metros e então ouvi:
- Como foi o reencontro com a Felicidade?
E eu respondi:
EU – Ah! Você de novo! Esperava que tivesse ido embora para nunca mais voltar.
Era a Tristeza que retornara brotando de minha lágrimas.
TRISTEZA – Sentiu a minha falta?
EU – Claro que não! Tu só me faz sofrer!
TRISTEZA – É, é para isso que eu existo. Mas como foi com a Felicidade?
EU – Foi bom enquanto durou. Mas não pensava que Ela iria embora desta vez.
TRISTEZA – Mesmo? Depois de tudo que Ela te fez, tu ainda não esperava?
EU – Não mesmo! Sabe de uma coisa? A Felicidade é muito antipática e cruel, chega a hora que quer, sem avisar. Depois sem mais nem menos vai embora. Depois de te envolver Ela te abandona.
TRISTEZA – Eu nunca a vi. Sabe como é ? Quando ela sai, eu volto. A gente não pode se ver. O que é isso na sua mão?
EU – É meu telefone, espero uma ligação. Eu disse três vezes e foram duas, não três!
TRISTEZA – O que? Não entendi.
EU – Não te interessa!
- Mas você também é muito má, não te suporto mais! Passei muitos anos da minha vida contigo. Aliás, a maioria diga-se de passagem.
TRISTEZA – Você quer que eu vá embora?
EU – Quero!
TRISTEZA – É fácil, você terá que se matar. Porém isso tem um preço. Eu iria acompanhar aqueles que mais te amam, e eu os farei tristes.
EU – Não. Não é uma boa idéia. Não é justo que eu deseje algo assim para alguém. Além do que, eu não faço parte da geração do mal do século.
TRISTEZA – Concordo, não é o teu tipo. A propósito, você chorou?
EU – Claro que não! Prometi nunca mais chorar.
TRISTEZA – Ótimo. E de onde eu brotei?
EU – Não chorei. Amo mais a mim do que a Felicidade.
TRISTEZA – Bom. Se teu amor próprio é maior, tu pode viver sozinho.
EU – Calma! Também não quero virar um Dom Casmurro.
TRISTEZA – Por falar em Dom Casmurro. A Capitulina traiu, ou não o Bentinho?
EU – Já cansei de te falar que sim.
TRISTEZA – Mas tu não me convence.
EU – Isso não vem ao caso agora. Droga! Tenho fotos no celular.
TRISTEZA – E?
EU – Ainda não acabou!
TRISTEZA – O que não acabou? Não te entendo.
EU – Não interessa. Sabe Tristeza? Tu sempre causa muita dor e sofrimento.
TRISTEZA – O que são essas marcas na sua mão direita?
EU – Não são nada perto das marcas dentro do meu peito. Essas sim doem demais!
TRISTEZA – Você vai chorar?
EU – Não.
TRISTEZA – O que é isso no seu rosto?
EU - ...
TRISTEZA – É uma lágrima?
EU – Só não sei quem é pior. Você ou a Felicidade.
TRISTEZA - ...
EU – Está vendo aquilo lá?
TRISTEZA – Sim, o banco da rodoviário.
EU – Aham! Eu vou lá. Vou dormir pois a Felicidade foi um sonho muito vivo e intenso, tão rápido quanto uma noite de sono. Talvez Ela volte.
TRISTEZA – Meu caro! Depois de tudo que você falou da Felicidade. Você ainda crê que eu sou pior? Você está apaixonado por Ela, e a paixão é o outro extremo da razão. Extremo como eu e Ela somos. Amanhã você vai acordar e quem estará lhe abraçando serei eu e não Ela. Dificilmente Ela voltará. E se voltar, você vai querer tudo isso de novo? Quem causa o verdadeiro sofrimento? Eu ou Ela? Foi ela que me criou só por pura vaidade de ser buscada por todos. Se não fosse Ela não haveria sofrimento. Sou sua melhor amiga e sempre estarei do seu lado.


Por Tiago Fontanella.

2 comentários:

Deividi Pansera disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Deividi Pansera disse...

Senti um ar dos anos 90 nesse diálogo. Legal, ficou legal. Beirando a Neil Gaiman, digno de uma conversa entre Morpheus e a Morte. Nice.


"May the force be with you"